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Quando um governante sobe a carruagem e chama a crítica de latido

Pela enésima vez, o governador Carlos Brandão afirmou que ficará até o fim do mandato. Mas o que mais chamou atenção não foi a previsível reafirmação de permanência no cargo, e sim a frase que a sucedeu: “os cães ladram e a carruagem passa”.

A citação, ainda que pretensamente popular, escorrega na forma e na substância. E diz muito sobre o imaginário de poder que hoje se cristaliza no Palácio dos Leões.

A expressão original “os cães ladram e a caravana passa” tem origem árabe e simboliza a resiliência diante de críticas. A caravana representa o coletivo em marcha, o esforço comum, a travessia de muitos em busca de um destino. Não por acaso, trata-se de um provérbio historicamente ligado à ideia de constância frente às adversidades, não de desprezo ao contraditório.

Brandão, no entanto, trocou a caravana por uma carruagem. E a oposição por cães.

A metáfora da carruagem não é ingênua. Evoca luxo, distinção, isolamento. Se a caravana é feita de caminhantes que compartilham o chão, a carruagem transporta uma figura solitária, acima dos demais, protegida do barro, conduzida por cavalos. Ao se colocar nesse lugar, o da carruagem que avança enquanto os “cães ladram”, o governador insinua não apenas superioridade, mas imunidade.

Ele se vê conduzido por algo que o protege do ruído, do incômodo, do atrito. E mais: desumaniza seus críticos, reduzindo a oposição a ruído animal, a barulho perturbador que se deve ignorar.

Não se trata de preciosismo retórico. Há implicações profundas nesse gesto. Um líder que recorre a esse tipo de imagem projeta uma política sem escuta, sem diálogo, sem alteridade.

Na democracia, não é admissível que a crítica seja tratada como latido. O pluralismo exige respeito, mesmo quando os argumentos incomodam.

Chamar a divergência de ruído é uma forma velada de autoritarismo simbólico e, por vezes, o prenúncio de práticas institucionais que seguem pela mesma lógica.

E há uma inversão fundamental aqui: em regimes democráticos, não é a carruagem do poder que deve passar ilesa. Quem precisa passar, com segurança e dignidade, é o povo.

O governante não é o protagonista de um desfile aristocrático, mas servidor de uma sociedade plural, ruidosa, crítica. O barulho da oposição, das ruas, das instituições, é sinal de vitalidade democrática. O silêncio, sim, é que deveria preocupar.

Talvez o governador esteja cansado das críticas. É compreensível. Mas o cansaço com a democracia costuma ser o primeiro passo para quem já não se reconhece obrigado por suas regras.

O mais preocupante, portanto, não é o erro na frase. É o acerto no que ela revela. Estamos diante de um governante completamente deslumbrado com o poder e fazendo de tudo para impedir que ela saia das mãos de sua família. O povo? Que bata palmas para a luxuosa carruagem leonina que desfila pela Avenida.

Maranhão 2050: para onde, para quando?

Lendo o artigo do colega aqui do lado, fiz aquele velho mergulho na História (talvez nas trevas) pra tentar compreender o significado de o que seria um “Maranhão 2050”. Mas nem voltei muito, só uns 100 anos (imaginando o período de 1950 a 2050). E por que esse período? Pela recente promessa de um Maranhão desenvolvimentista para 2050.

Que projeto trilha o Brasil (e o Maranhão, que está na mesma pororoca)? Aquele iniciado nos anos 1950, de cunho “desenvolvimentista” (vamos colocar aspas, porque o termo desenvolvimentista pode ser bem repensado).  Aquele mesmo projeto que se sentiu ameaçado pela reforma agrária de Joao Goulart, as famigeradas “reformas de base”.

Era um plano de empresários e industriais que passaram a mandar num Brasil de coronéis que se diluía (o Maranhão nem tanto). E esse plano envolvia dinheiro para esse grupo. Não envolvia nada coletivo, que beneficiasse a população carente como projeto de educação, saúde, muito menos de necessidades básicas, como moradia, saúde pública, ou vacinação, por exemplo. Era o início de um projeto multinacional, de mercado aberto.

Esse projeto se viu ameaçado quando o maluco do Jânio Quadros trocou os pés e João Goulart assumiu o governo do Brasil. A onda hegemônica e neurastênica anticomunista norte-americana estava a todo vapor, financiando golpes militares a torto e a direito, principalmente na América Latina. Foi fácil reunir o poder armado militar e o poder financeiro empresarial. Pronto! Tá feito o golpe de estado antidemocrático de 1964. Esquece-se a reforma agrária e financia-se o empresariado estabelecido.

Eleições de 1965 e o Maranhão

Nas eleições de 1965, foi eleito governador do Maranhão, pela ARENA (o partido do golpe militar) o jovem deputado federal José Sarney, queridinho do presidente golpista general Castelo Branco: “Deputado a sua eleição foi um dos fatos políticos que mais me sensibilizaram até hoje. Fique certo de que o Maranhão receberá toda a assistência do Governo Federal, eu quero colaborar decisivamente com seu governo”, matéria do Jornal O Imparcial de 24 de outubro de 1965.

Junto com Sarney, foram eleitos dois senadores, também da ARENA: Clodomir Millet e Eugênio de Barros; e Antônio de Moraes Correia, pelo MDB (partido de oposição). Dos deputados federais (eram 16, na época), 13 eram da ARENA e apenas 3 do MDB (dois deles seriam cassados pelo AI5).

Em 1965 a Assembleia legislativa era composta por 40 deputados estaduais. A ARENA elegeu 31 (entre eles Carlos Orleans Brandão, pai do atual governador do estado) e o MDB elegeu 9 deputados estaduais.

Mais um detalhe, o grande adversário derrotado por Sarney, na época era o Vitorino Freire (oligarca de anos, mandando no estado); Vitorino também se filiou à ARENA, tornando-se correligionário do principal adversário, que acabou com uma eternidade de seus mandos no estado. Parece até a piada pronta de que “às vezes é preciso mudar tudo, para tudo permaneça igual”.

O golpe militar, que foi um golpe civil-militar, levou milicos para a presidência, mas também levou todos os gestores desenvolvimentistas do empresariado para os mais altos cargos da república, onde retomaram o projeto de financiamento do empresariado brasileiro, deixando o povo na miséria e no analfabetismo.

No Maranhão, Sarney se tornou o comandante da nova oligarquia (ah, não é mais!) e financiador político do projeto da ditadura que continuava o projeto dos anos 1950, sempre apoiado pelo grupo conservador que atuava nos legislativos, quase todos da ARENA e apoiadores do golpe, da ditadura, dos atos antidemocráticos e silenciados sobre todas as atrocidades cometidas nos anos de chumbo.

E assim foi, até o governo Fernando Henrique Cardoso (apesar dos pesares) iniciar um processo de inclusão da população pobre no projeto nacional. Agora esse projeto (de Estado!) pensa o Maranhão pelos próximos 27 anos. Que bonito! Parece que agora vai. A não ser que cortem a curica de Lula, como cortaram a de Dilma e o Maranhão 2050 siga até lá com as commodities, o agronegócio e alguns poucos mandatários ou desmandatários vivendo nababescamente à custa do erário.

Cenas dos próximos capítulos

O Governo Lula dá novo impulso ao processo de inclusão social no país. Sarney dá nova volta por cima e continua voz unânime na política nacional.