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A política como ela é

“Em questões de estado, cuide das formalidades e pode esquecer as moralidades” escreveu Mark Twain certa vez.

Em períodos de campanha eleitoral os discursos são os mais progressistas possíveis, austeridade, responsabilidade fiscal e a promessa recorrente da formação de um secretariado técnico capaz de promover transformações reais na administração pública e na vida do cidadão. Mas passada a euforia da eleição a conta das alianças partidárias chega, todas as promessas caem por terra, a desfaçatez predomina e como num passe de mágica quase ninguém mais lembra o que foi prometido em tão pouco tempo. Um fenômeno realmente impressionante.

Vamos pegar como exemplo o projeto Maranhão 2050, lançado ano passado no calor do debate político e vendido como um planejamento audacioso para o futuro do Estado, mas pelo visto não passou de uma apresentação para inglês ver, onde até o idealizador do projeto, o então secretário de planejamento Luís Fernando foi mudado de pasta e “escanteado” no governo.

E assim aconteceu em outras áreas do novo governo, onde ficou claro que em primeiro lugar está a política e seus dependentes que sobrevivem exclusivamente dela tornando o Estado uma grande empresa para poucas famílias. Não importa se a secretaria da mulher posta uma foto expondo duas mulheres negras tentando mascarar sua verdadeira origem como não importa entregar a secretaria de indústria e comercio para um gestor condenado por improbidade administrativa, entre outros nomes sem especialidades para comandar pastas importantes da máquina administrativa. Mas nada disso importa, o principal pré requisito é a política, assim como ela é.

E tudo isso esta claro nas manchetes que assistimos e lemos passivamente todos os dias, só não percebe quem não quer.

Capitão manda mais que general e coronel mais do que ministro: O poder no “Pálido Ponto Azul”

A Terra é um cenário muito pequeno em uma vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, em glória e triunfo, eles pudessem se tornar os donos momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas infindáveis ​​crueldades cometidas pelos habitantes de um canto deste pixel sobre os habitantes praticamente indistinguíveis de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ansiosos eles estão para matar uns aos outros, quão fervorosos seus ódios

Carl Sagan*

 

Pra deixar de entretanto e partir pros finalmente, não vamos começar o discurso dizendo: “Povo de Sucupira”… Embora ultimamente não sejam raros casos em que capitão manda mais que general e coronel manda mais do que ministro e mais do que (na falta de balaiada) uma jacalhada de coisas.

Com mais de dois meses de governo e um suspense infundado, para uma divulgação infantilizada de nomes, praticamente, de conhecimento público, o governo, enfim, começa a “definir” sua equipe. Uma releitura do coronelato de tresontontes…

Uma parentalha em postos mais que estratégicos, escudeiros em outras os pinga-pus da currutela se matando pra roer os ossos que sobram. Entre tudo isso uma guerra fria pra tentar segurar postos “negociados” no passado recente.

O PT, por exemplo, vem numa “briga” para conquistar espaços no governo. Mas o que se viu essa semana foi uma noticia de Lula (PT) ligou pro governador Brandão (PSB) pra pedir espaço no governo para Adriano Sarney (PV). E pro PT, não pede nada? Isso lembra uma vezes que Lula passou por cima do PT maranhense, dizendo que as lutas internas eram problemas do PT local…

Segundo o presidente Francimar Melo, o PT pleiteava três secretárias (Agricultura, Direitos Humanos e Trabalho) e, mais, Educação, que seria um espaço já conquistado pelo senador Flávio Dino (PSB).

Mas essa conversa com Melo foi na manhã da sexta (24). Na tarde do mesmo dia saiu o resultado das discussões e o PT ficou com Educação, Direitos Humanos, Trabalho e IEMA.

Perguntei para o presidente do PT: Perderam agricultura? “A SEDUC + IEMA é  grande. Então não perdemos”, considera Melo. Nem lembrei a ele, que segundo avaliação do partido, confirmada por ela, a SEDUC (Educação) não estava na cota do partido…

Mais espaço para o PT

Um nome de peso, que vem ganhando leveza (desculpa Kundera) é o deputado Othelino Neto (PC do B). O ex-todo-poderoso da Assembleia Legislativa vem traçando um caminho enviesado, desde que… Bom, essa é uma longa história para os Historiadores

Othelino Neto é o marido de Ana Paula Lobato, suplente de senadora, que assumiu o mandato no senado quando Flávio Dino se tornou Ministro da Justiça. Com a mulher e provavelmente a família tendo que ir para Brasília, o deputado comunista tem passado por um dilema, se fica no Maranhão como um dos 42 deputados ou vai para a Capital Federal. Já lhe foi oferecido o cargo de representação do estado junto aos poderes nacionais, mas ele vem negando interesse. Dizem que a oferta nem existe mais…

Fora isso, com a saída de Othelino, assumiria o mandato o primeiro suplente Zé Inácio (PT), que não se reelegeu na última eleição. Depois da conquista das secretarias e cargos no estado (que ainda não foram anunciados oficialmente), segundo Francimar Melo “Vamos construir a busca do mandato do Inácio; é importante”.

Francimar Melo diz que tem conversado com Othelino e que ele “pode fazer um gesto”. Aliás, Othelino anda bem quieto; nem tem aparecido na sessões presenciais da ALEMA. Mas sobre a saída dele para a entrada de Inácio, Francimar diz que “Tem sinais”.

 

* Trecho de texto do astrônomo norte-americano Carl Sagan, sobre uma das primeiras fotos do planeta Terra tomada a partir do Espaço Sideral (a sonda Voyager 1, que estava a 6 bilhões de km da Terra). A foto da legenda é da sonda Cassini, divulgada em 2017)

Precisamos ser indígenas¹ sem nos fantasiar

O antônimo de “indígena” é “alienígena”, ao passo que o antônimo de índio, no Brasil, é “branco”… Essas palavras indígenas têm vários significados descritivos, mas um dos mais comuns é “inimigo”, como no caso do yanomami ‘napë’, do kayapó ‘kuben’ ou do araweté ‘awin’. Ainda que os conceitos índios sobre a inimizade, ou condição de inimigo, sejam bastante diferentes dos nossos…

Eduardo Viveiros de Castro

 

O carnaval é como esses mostrossauros de trocentos metros de comprimentos e multitoneladas de peso, misturados com os mitos de Sísifo e da Fênix. Ou seja, é essa coisa formidável (nos dois sentidos), que nasce e morre o tempo todo, sem deixar de carregar sua pedra morro acima, a mesma pedra que rola novamente.

Sim, acabou o carnaval, morre Baco, vem a quarta-feira de cinzas e a quaresma (há os que fazem o sacrifício de não comer carne vermelha durante a quarentena – !!!!!). Como poetou Vinícius: “Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções, ninguém passa mais cantando feliz…”. Mas a “sexta-feira gorda” é só o começo!

Quinta-feira que vem, teremos as estatísticas: mortes, feridos, acidentes, estupros, feminicídios, prisões, número de celulares roubados, documentos perdidos… tantas coisas perdidas no meio dessa catarse coletiva, que é o carnaval.

As escolas de samba (escolas?!) estão zangadas por que o prefeito deu só um dinheirinho (e em cima da hora) pra elas brincarem o carnaval. Mas não faltam trios elétricos, shows, atrações nacionais, tudo “de grátis” para aplacar a fúria (fúria?) do cidadão, quer dizer, brincante; quer dizer, cidadão; quer dizer…

Esta semana passou uma entrevista na TV Senado com Ailton Krenak, onde ele citou o Eduardo Viveiros de Castro. Vou deixa assim, soltos, estes dois nomes… Impossível não lembrar uma conversa de redação onde jornalista de quase 40 anos de idade não sabia quem era Marilena Chauí. Bom, melhor não deixar os nomes soltos. O escritor indígena (traduzido para dezenas de línguas) Ailton Krenak é um indígena brasileiro, escritor, filósofo, ambientalista. Krenak não acredita em “sustentabilidade”, essa palavra que não sai da boca da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

Para entender melhor o Krenak é só recorrer ao antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, em minha opinião, uma das maiores e melhores manifestações do libertário que temos no agora (verdadeiros “Lances de Agora” pra citar outro Viveiros).

Com esses dois aprendemos o quanto é bom, e o quanto é necessário ser indígena, mesmo sem ser índio. Como, por exemplo, o agricultou Vicente de Paula, Morador do povoado Carrancas, em Buriti – MA, cuja terra vem sendo engolida pela soja. Ninguém faz o Vicente deixar de ser indígena, porque ninguém arranca seu devir, seu coração.

Mas o Vicente não é uma estatística do carnaval. Na verdade, não é uma estatística e se estende por todo o ano. A luta do Vicente e de milhares de pessoas iguais a ele, de comunidades tradicionais, ou seja, indígenas (no conceito de Viveiros de Castro), essa população invisibilizada pelos projetos capitas e de comunicação não vai entrar nas estatísticas de carnaval. É uma população está sendo lenta e progressivamente exterminada, e para o proveito de poucos, num projeto de poucos, para o mal de todos.

Como escreve Viveiros de Castro: “E nesse sentido, muitos povos e comunidades no Brasil, além dos índios, podem se dizer, porque se sentem, indígenas muito mais que cidadãos. Não se reconhecem no Estado, não se sentem representados por um Estado dominado por uma casta de poderosos e de seus mamulengos e jagunços aboletados no Congresso Nacional demais instâncias dos Três Poderes”.

O Brasil é uma barragem cheia de pequenos vazamentos que um belo dia apresenta uma grande rachadura. Então se começa a tapar os pequenos vazamentos…

 

Notas:

1 – “A palavra ‘indígena’ vem do «lat[im] indigĕna,ae “natural do lugar em que vive, gerado dentro da terra que lhe é própria”, derivação do latim indu arcaico (como endo) > latim] clássico in- “movimento para dentro, de dentro” + -gena derivação do rad[ical do verbo latino gigno, is, genŭi, genĭtum, gignĕre “gerar”; Significa “relativo a ou população autóctone de um país ou que neste se estabeleceu anteriormente a um processo colonizador” …; por extensão de sentido (uso informal), [significa] “que ou o que é originário do país, região ou localidade em que se encontra; nativo”. (Dicionário Eletrônico Houaiss).

Nem Jornal, Nicolau e nem Mical seguram o carnaval

Está em curso no Maranhão, um grande plano de unidade institucional. A classe politica, o judiciário, o ministério público e é claro, a imprensa, que não poderia ficar de fora desse grande “blocão”. Porém, mais uma vez faltou a fantasia para o povo entrar no camarote.

Num passado recente, o Brasil ficou escandalizado com a frase do ex-ministro do meio ambiente Ricardo Sales dita numa reunião ministerial “que era preciso aproveitar que a imprensa estava voltada para a Covid passar a boiada para as reformas infralegais.” A indignação foi geral, a imprensa então foi pra cima do ex-ministro com gosto de gás. A classe politica que estava na oposição na época fez festa, foi um festival de cards no instagram condenando a fala. Merecidos por sinal.

Vários atos infralegais foram cometidos por Ricardo Sales, como a liberação do garimpo em terras indígenas que só vieram a tona porque no âmbito federal é praticamente impossível ter uma unidade total,  a não ser em ditaduras é claro.

Trazendo a discussão para o Maranhão temos alguns atos que podem facilmente ser considerado infralegais e que pelo visto não chocam nem a classe politica e muito menos boa parte da imprensa, que além de mascarar, acaba contribuindo para normalizar tais atos.

Um desses exemplos é o caso claro de nepotismo no governo do Estado onde o sobrinho do governador Daniel Brandão foi nomeado para o cargo de secretário de monitoramento de ações governamentais. A súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal aprovada por unanimidade veda a contratação de parentes até terceiro grau em cargos de confiança que está proibida nos três poderes, nas esferas federal, estadual e municipal. Apesar de ser uma decisão máxima do STF do implacável Alexandre de Moraes, por aqui fizeram de conta que não sabiam e ignoraram, nem a classe politica, nem o ministério público e muito menos a “imprensa”, salvo alguns poucos jornalistas é claro.

Essa semana outro ato que também pode ser considerado “infralegal foi normalizado, a indicação do mesmo Daniel Brandão para ingressar no Tribunal de Contas do Estado, basicamente, o sobrinho vai fiscalizar o governo do Tio, melhor impossível. Como prêmio, um salário vitalício aos 37 anos de idade. Nada mal, não é verdade?

Procurei manchetes condenando essa indicação em veículos de imprensa que foram pra cima Ricardo Sales na época, mas não encontrei praticamente nada, salvo poucas exceções é claro. O que encontrei foi a normalização alegando que a indicação não teve influência do executivo e sim uma decisão com autonomia da assembleia, essa mesma assembleia que cassou o titulo de cidadão maranhense de Anderson Torres (que apoiou os atos de vandalismo em BSB), fechou os olhos para as imagens do sobrinho do governador na cena de um crime a luz do dia. Aliás, sobre esse caso, ninguém fala mais nada, assunto encerrado. Tudo em prol da unidade.

Essa unidade é tão junta que até a liberação, um dia antes da indicação do de Daniel Brandão para o TCE, de 300 mil Reais para cada deputado fazer carnaval em suas bases foi normalizada. Na badalada coletiva do governador não se ouviu um questionamento sequer sobre os municípios que não apoiaram os 42 deputados como teriam apoio verbas para fazer o carnaval? Será que elegemos parlamentares ou donos de “blocos” carnavalescos? Não sabemos por que a implacável imprensa maranhense não prestou atenção nesses detalhes, quer dizer acho que até sabemos a motivação, mas não é de bom tom opinar sobre as responsabilidades jornalísticas individuais. Nosso questionamento é sobre a imprensa em geral, da qual fazermos parte, por isso fazemos questão de deixar registradas aqui essas perguntas.

Essa unidade parece ser mesmo poderosa e tem acomodado todo mundo. Até o também implacável MP, que tem cancelado carnavais em cidades pelo maranhão alegando desperdício de dinheiro público, parece não ter feito a conta que o Estado vai gastar quase 13 milhões para os deputados gastarem da forma como querem nesse carnaval; desse jeito até a deputada Mical caiu na tentação da folia carnavalesca.

Enfim, como o período é de alegria, os blocos estão passando pela avenida, uns mais pobres, outros muito ricos, mas essa é uma festa de união que o povo fica fora dos camarotes. Ei, corre que chegou a hora do Grêmio Recreativo Unidos Pelo Maranhão desfilar; o enredo deste ano é  “nem Jornal, Nicolau e nem Mical seguram o carnaval”. Tragam a maisena, já tem água para lavar o rosto jorrando na passarela.

 

“Alguma coisa está fora da ordem mundial”

Tribunal de bar – Paralamas do Sucesso

Foi julgado, condenado, executado
Sem direito a apelação
Foi dissecado, comentado e açoitado
Pelas línguas no Leblon
Descontrolou-se porque algo estava errado
Mas ninguém deu atenção
E finalmente foi traído
E viu seu nome publicado num jornal
É o veneno que sai
É o veneno que sai
E te faz o pior entre os iguais
Nos tribunais de qualquer bar

 

O Maranhão é símbolo da miséria nacional, da fome, do crime, da desigualdade, do paternalismo, do coronelismo, de tudo que envergonha esta nação. Como bem disse o Caetano Veloso: “Eu não espero pelo dia/ Em que todos/ Os homens concordem/ Alguma coisa está fora da ordem mundial…” E não é só a questão dos Ianomamis. Em meio a algumas tentativas de moralizar gastos públicos, desde o ano passado alguns shows “produzidos”, principalmente, pelas municipalidades, a grandes custos, vêm sendo impedidos por iniciativa de um ou outro membro do Ministério Público.

Um trabalho de Sísifo. Entre tantas esquinas artificiais criadas para o rio passar, nesta semana que antecede o carnaval, o governador deu (DEU) R$ 300 000,00 (trezentos mil Reais) a cada um dos 42 deputados estaduais do Maranhão, para que estes “realizassem o carnaval em suas bases eleitorais”. Como assim?

Há alguns dias o Ministério Público pediu o bloqueio do dinheiro que seria gasto no carnaval de Imperatriz, que foi bloqueado pela primeira instância. Nesta segunda-feira (13) o Tribunal de Justiça decidiu por desbloquear o valor, que é de R$ 444.050,00. Porém, o procurador-geral de Justiça, Eduardo Nicolau, já disse que vai recorrer ao Superior Tribunal de Justiça contra a decisão do TJ maranhense.

O valor é menos do que um deputado e meio vão receber para “fazer o carnaval de suas bases”.  Vai ter MP, vai ter TJ, vai ter STJ, vai ter TCE? Este último, certamente, vai ter, mas esta é outra história,

Enquanto isso, “Nada de novo há no rugir das tempestades”, as porteiras estão abertas e as boiadas estão passando e não tem volta, ainda que se roube, se corrompa, se mate e que se “transforme o pais inteiro num… “

Futebol, política e carnaval: a realidade que não queremos ver

Assistimos diariamente uma enxurrada de “noticias” sobre as coisas que acontecem e não acontecem no Maranhão.

Somos bombardeados diariamente por manchetes que destoam das imagens e fotografias, além de narrativas incoerentes que num passe de mágica querem transformar vantagens politicas pessoais em benefícios para a população, entre tantos exemplos.

Pegando um pouco da referência à mágica, lembram-se do grande Houdini? Começou a carreira fazendo pequenos truques, mas passou a ser confrontado com a realidade e teve que direcionar seu talento de ilusionista para o escapismo, se tonando um dos melhores do mundo até hoje em dia. Muitos não sabem, mas Houdini também ficou conhecido como flagelo dos falsos espiritas ao expor mágicos fraudulentos em sua época. Qualquer semelhança com o Mister M não é mera coincidência, lembram da voz do Cid Moreira anunciando o inimigo número 1 dos mágicos? Pois é, chega uma hora em que o milagre precisa ser revelado e exposto que não existe mágica, o máximo que pode acontecer são truques bem feitos que mascarem a verdade.

Mas será que o público não gosta mesmo de ser enganado? Para muitos é melhor viver com a esperança do que encarar a realidade, mesmo que seja distópica, infelizmente.

É justamente nesses lapsos que aparecem e crescem os “salvadores da pátria”. E quem dera que fossem o utópico Sassá Mutema da novela das oito, no nosso caso é melhor fugir do romance de Lauro Cesar Muniz e recorrer a uma passagem da obra original de Gonçalves Dias, I Juca Pirama.“ São rudes, severos, sedentos de glória, já prélios incitam e já cantam vitória”.

Como a vida sempre imitou a arte ou vice versa, estamos produzindo uma série de três artigos essa semana que antecede o carnaval onde vamos dar o nosso ponto de vista sobre a crise que assola o Moto Club, o Momento de unidade política do Maranhão e claro o nosso carnaval sem matéria prima, tipo importação.

Republicanos cresce no Maranhão e convida prefeito de São Luís para entrar no partido

As mudanças partidárias da política brasileira são apenas uma desconstrução das aparências. Vê-se uma mudança de caras, de figuras, preservam-se as atitudes, as posturas, os paradigmas, esses num viés sempre vesgo para os caminhos do desenvolvimento nacional, mas com os olhos arregalados para orçamentos secretos e etc.

Ano passado vimos os deputados Bira do Pindaré e Zé Carlos perderem os mandatos e Pastor Gil e Josivaldo JP Manterem. Perde o Maranhão, perde o legislativo. Outros se mantiveram e outros se perderam, uma maioria que não fede nem cheira.

Num desses cenários, terminando a semana, vimos no evento do Partido Republicanos, que muda de gente, mas não muda de cara, a confirmação do deputado Aluízio Mendes no comando do partido no Maranhão. O antigo “dono”, Cleber Verde, sequer foi escalado para compor a direção partidária. Gil Cutrin, que sequer se reelegeu, ficou na vice-presidência.

No evento que compôs a direção partidária maranhense, com a presença do presidente nacional do partido, Marcos Pereira, ocorrido na sexta-feira (10), não faltou elogio para Mendes. Entre os presentes estavam a presidente da Assembleia Legislativa, Iracema Vale (PSB), e o prefeito de São Luís, Eduardo Braide, que anda balançando no seu partido PSD, com a entrada da senadora Eliziane Gama, que, dizem, passará a comandar o partido de Kassab, no estado.

Não seja por isso, que em alto e bom som, Marcos Pereira convidou Braide para engrossar as fileiras do Republicanos, e fazer parte do partido de Eduardo Bolsonaro, onde até outro dia estavam, o governador Carlos Brandão (PSB) e o deputado Duarte Jr (PSB).

É fato que Aluízio Mendes alavancou o Republicanos, desde que assumiu a direção estadual. Atualmente o partido conta com dois deputados federais, uma deputada estadual, 43 prefeitos e 211 vereadores, isso se o deputado Cleber Verde permanecer, o que, ao que parece, não é prioridade nenhuma do partido.

“Todos a bordo, o comandante gritou”.

Última chamada para os inquilinos do poder se acomodarem em seus devidos lugares.

“Mas qual seria o rumo”? Gritou um marinheiro.

“Navegar a esmo, talvez seja a nossa sina”, foi a resposta do capitão.

Se nos guiarmos pela história, sempre assumimos uma postura de subordinação ao poder central brasileiro, foi assim na Colônia e no Império, época das Grandes Navegações, mas essa Dependência dura até hoje na dita “democracia” e deve durar muito ainda.

O problema continua sendo o rumo a seguir. A máquina administrativa do Estado ainda está a espera das definições políticas em Brasília para terminar de acomodar seus muitos aliados, e o mais impressionante, é a torcida em torno desses nomes em que as escolhas nunca mudaram a realidade da maioria da população maranhense, a não ser é claro dos “teams leaders” que sempre rondam o poder.

A sucessão de problemas começa na falta de planejamento em todas as esferas de poder, seja na câmara municipal onde a LOA é aprovada praticamente sem discussão, onde o debate acabou sendo sobre o pagamento das emendas impositivas, ou na Assembleia Legislativa onde os parlamentares estavam mais preocupados com a composição dos cargos da mesa e o aumento de salários, de brinde, o tradicional “rachid abdalla” dos 151 milhões para as emendas impositivas.

E se havia otimismo para o ano legislativo de 2023, não começamos bem. Tivemos a “maldição” da Mical para os colegas que apresentarem leis que ela julga ser contra Deus e também do deputado de neo-bolsonarista Yglésio Moíses, que numa espécie de rompante binário apresentou um projeto de lei para que o sexo biológico determine o gênero dos atletas profissionais. Fico imaginando como isso influenciaria no campeonato profissional de xadrex? E a confusão que seria no queimado (risos)? Pelo menos ele deve ficar livre da “maldição” da Mical.  De produtivo mesmo, somente o deputado Carlos Lula que propôs um projeto de lei para instituir a política estadual da primeira infância.

No executivo, ninguém ouve falar mais no badalado Maranhão 2050, alardeado na campanha, o plano traria um direcionamento através de projetos técnicos importantes para o Estado. Enquanto isso, assistimos complacentemente a disputa da classe política para quem pega os melhores cargos federais e estaduais, nessas horas pouco importa a esquerda ou a direita do discurso, o importante mesmo é a narrativa de união de todos em prol de um Maranhão melhor, as melhores intenções e  os melhores quadros que são empurrados por osmose. Se não der certo, não nos preocupemos, todo mundo esquece depois, tipo um trecho de uma música dos titãs, “ o gênio de última hora é o idiota do ano seguinte, o último novo rico é o mais novo pedinte”.

Para retratar o papel da população vamos voltar à analogia do mar e as ondas revoltosas como as do boqueirão. Tem uma cena do filme Piratas do Caribe que é genial: dois piratas moribundos dividindo um bote salva vidas depois de um naufrágio, uma sereia aparece e um deles fica encantado, então o outro avisa, se você se deixar levar pelo canto dela vai morrer, então ele mergulha e fala que é melhor ter um minuto de felicidade e morrer ouvindo o canto de uma mulher bonita do que ficar remando no oceano.

A moral da história fica por conta da imaginação de vocês.

A ditadura do discurso unificado

“Desde os primórdios até hoje em dia, o homem ainda o faz o que o macaco fazia” já lembravam os Titãs tempos atrás.

Pode até parecer piegas citar a letra de uma música num texto, mas é preciso levar em conta que fomos doutrinados a confiar na história, não só a dos registros “oficiais”, que por sinal, já foram comprovadamente editadas e reeditadas de acordo com a conveniência do poder. Mas o guarda-chuva nunca é muito grande, os manuscritos originais acabam vazando e por mais que os escribas “oficiais” tentem sustentar o discurso do rei, a plebe sempre descobre uma forma de ficar sabendo as reais intenções dos acordos celebrados na corte.

Trazendo a discussão para a província local, bem antes de a imprensa existir por essas terras, já era obsessão da elite o controle do que era comentado e conversado nas rodas da época. Mas em 1821, finalmente o governador maranhense, o marechal português Bernardo da Silveira, importou uma prensa de Londres e assim estava fundado o primeiro jornal impresso maranhense, O Conciliador. Na realidade o impresso servia apenas para reproduzir o discurso da coroa portuguesa no auge dos debates pela independência, tanto é que foi fechado assim que as tropas fiéis a Dom Pedro tomaram São Luís. Exaltado e celebrado como primeiro jornal da nossa história, talvez o maior “legado” do Conciliador, o breve, tenha sido criar um estilo jornalístico que sobrevive até hoje, a subserviência e sustentação ao poder vigente.

Avançando um pouco mais no tempo, mais precisamente em 1965, ano considerado o marco temporal da “queda” do vitorinismo no Maranhão, os registros oficiais mostram um movimento ideológico de renovação capitaneado pelo jovem José Sarney, que sob um pano de fundo chamado “oposições coligadas” pregava o fim de práticas coronelistas no Estado. Hoje a história mostra que tudo não passou de um mero discurso e na realidade, após o golpe de 1964 os militares tiraram o poder do velho Vitorino, que ficou do lado de João Goulart, deposto pelo regime de militar. Em represália, os milicos apoiaram o jovem Sarney, que foi eleito governador em 1965. Com a chegada do AI5, o então governador maranhense, foi para Aliança Renovadora Nacional, partido de sustentação dos militares, ficando por 20 anos na legenda.

A imprensa maranhense, é claro, fez sua parte e embarcou nessa nova roupagem sustentando a narrativa de um “Maranhão Novo”, livre do coronelismo, o Maranhão do libertador do povo, o Maranhão de José Sarney. Mas por ironia do destino décadas depois, o já velho oligarca acabou sendo vitima da mesma estratégia e assistiu a repetição do seu discurso personificado por Flávio Dino, que também chegou ao poder prometendo acabar com velhas práticas e apesar de ter feito um bom governo, ficou distante das promessas feitas das janelas do Palácio dos Leões. Qualquer semelhança com a posse de Sarney em 1966 é mera coincidência, a não ser por um profético Glauber Rocha que registrou imagens que fatalmente seriam o testemunho da realidade do Maranhão do passado, presente e futuro, além dos discursos.

No governo Geisel (1974 – 1979) os militares já começam a fazer a abertura, segundo eles, “lenta, gradual e segura”, mas não foi bem assim também. Em 1978 o AI5 é revogado, em 1979 é assinada a lei da anistia, em 1982 temos eleições diretas em todos os estados brasileiros. Podemos dizer que as eleições para presidente seria o passo seguinte e que os comícios com a grife “diretas já” foram a cereja do bolo para todos aparecerem bem na foto da novo Brasil, e quem estava no palanque encerrando com festa um período obscuro da história brasileira e tentando também enterrar os fantasmas do passado? O futuro presidente do Brasil na abertura.

Se prestássemos mais atenção na história perceberíamos a repetição de práticas politicas no Brasil e por tabela no Maranhão. Do interventor de Vitorino Freire ao Interventor de Flávio Dino, os personagens quando não são os mesmos, são os filhos dos mesmos, parentes dos mesmos, prepostos dos mesmos, seja na política, na imprensa ou na sociedade.

Hoje e mais uma vez estamos assistindo a tentativa de implantar um discurso único e pacificado no Maranhão. Um estado sem oposição com bombeiros e escribas prontos para esfriarem qualquer indício de rebelião. Fica a pergunta, por que dessa vez pode dar certo? Vamos tentar de novo, afinal é carnaval e pouco importa o lado certo da história.

Executivo & Legislativo ou Executivo X Legislativo? A população ainda existe

Se pousarmos o olhar sobre as duas casas legislativas, a Câmara de Vereadores de São Luís e a Assembleia Legislativa do Maranhão, teremos a necessidade de sombrear a testa, de cerrar os olhos, de desconfiar, de questionar como andam as relações nessas “casas do povo” em busca de alguma compreensão.

Vivemos duas realidades estranhas. Esse é o nome. Estranho é aquilo que não devia ser, que se apresenta distorcido, indefinível. E como se trata de uma situação pública (ou pelo menos devia ser), essa estranheza, essa indefinição, se torna mais preocupante. Lembrando que entre outras, a função das duas casas legislativas é fiscalizar os executivos, apreciar as demandas desses e fazer a ligação deles com a população: as assembleias são a casa do povo!

Apesar de o prefeito Eduardo Braide (PSD) ter comparecido na manhã desta segunda-feira (06) à abertura dos trabalhos da Câmara Municipal, o clima entre executivo e legislativo municipais continua azedo, e cada vez mais; a ponto de, sequer, a prefeitura ter um líder na casa, cargo abandonado pelo vereador Raimundo Penha (PDT) ainda no ano passado. E cargo que ninguém se mostra interessado em ocupar.

Na assembleia legislativa se dá ao contrário. Parece que o chefe da casa é o govenador Carlos Brandão (PSB) e não da sua presidente, Iracema Vale (PSB). O que se vê é o governador apaziguando todas as quimeras ali geradas. Foi ele, por exemplo, quem definiu quem presidiria a casa e até quem seria o vice, resolvendo contenda dentro até do partido alheio (caso entre Ana do Gás e Rodrigo Lago, os dois do PC do B).

Agora é a vez da formação das comissões permanentes, sendo a Comissão de Constituição e Justiça a mais importante e mais cobiçada. Coincidentemente, o nome mais forte para ocupar a presidência da CCJ é o deputado Carlos Lula (PSB), do partido de Brandão. Dizem que Lula foi rifado na composição da mesa, e que a presidência da CCJ seria uma compensação.

Então é só coincidência mais um cargo no controle do grupo do governo. Só lembrando que a ALEMA deveria ser um contrapeso nas ações do governo, um fiscal; mas aí fica que nem flanelinha, que recebe um troco e diz que foi o caminhão de lixo que amassou o carro? Ou não?

Uma das coisas recentes mais chocantes, e que ficou no vento, como poeira ordinária, foi a declaração dos ex-ministro do meio ambiente de Bolsonaro, eleito deputado federal Ricardo Sales, com a história de “aproveitar pra passar a boiada”, sobre toda a legalidade e toda a moralidade. Por isso hoje mais de cinco mil garimpeiros estão na Terra Ianomâmi e os indígenas morrendo a toque de boiada passando a porteira.

O que move o mundo democrático é o desequilíbrio, sob a busca do equilíbrio. Nenhuma ordem pode ser inquestionável, nenhum pensamento, nenhuma ação, nem pro bem, nem pro mal a despeito de subir um odor de totalitarismo. É bom a imprensa (é isso mesmo, a imprensa… ah… sei, a imprensa) e os reguladores sociais (?) abrirem o olho. O embate entre executivo e legislativo é saudável, desejável, e imprescindível. E que haja acordos e desacordos. Tudo em prol da democracia, do republicanismo e da população (isso mesmo, ela ainda existe).

Vamos discutir, vamos discordar. Até por que, como disse Nelson Rodrigues “Toda unanimidade é burra”. Ou será que agora a unanimidade tem outro nome?

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